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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

Marcha das Vadias de Salvador contra a Transfobia

Esta postagem é uma união solidária dos blogues Blogueiras Negras, Blogueiras Feministas, Gorda & Sapatão, Coletivo Audre Lorde, Biscate Social Clube e Transfeminismo com a MDV-Salvador, em resposta ao episódio de violenta transfobia sofrida por viviane v. a partir de certo setor transfóbico do feminismo, à época da marcha. Segue a íntegra da carta feita pela MDV-Salvador e por viviane v.:
Todo ano é realizada, no dia 2 de julho, a Marcha das Vadias de Salvador, que reúne dezenas de mulheres do estado para levar às ruas suas demandas e questionar as imposições do patriarcado na vida das mesmas. A marcha das Vadias é organizada por mulheres residentes em Salvador, mas também conta com o apoio de algumas companheiras do interior, que se reúnem para discutir o andamento do evento. Em uma dessas reuniões foi discutido o fato de a Marcha das Vadias precisar romper os limites da mulher branca, heterossexual, cisgênera, e de classe média e procurar trabalhar as intersecções para contemplar toda a diversidade de mulheres — sejam elas intersecções de raça, classe, orientação sexual ou identidade de gênero.

            Entendemos que é necessário levar essas demandas para as ruas, visto que o fato de não evidenciarmos as especificidades de cada categoria acarretar no silenciamento e invisibilidade das mesmas. Entendemos que opressões como: racismo, elitismo, lesbofobia e bifobia, assim como transfobia são agravantes das violências as quais estas mulheres estão expostas e, por isso, enfatizamos a importância de abordar esses temas na nossa campanha. Com toda dificuldade, tocamos uma campanha para Marcha de 2014 e buscamos tentar contemplar toda a diversidade de mulheres.
viviane v., mulher trans, é nossa companheira de longa data e esteve conosco na construção da Marcha. Achamos importante que nossas companheiras tenham voz nesse espaço e que tenham o apoio de suas irmãs e assim o fizemos. Ela teve total liberdade para expressar-se. Porém, logo após a publicação de suas fotos, fazendo a divulgação da Marcha, nossa companheira foi alvo de diversos ataques transfóbicos. Seu perfil do facebook foi denunciado diversas vezes por falsidade ideológica e suspenso — uma forma de usar a transfobia cistêmica para negar a identidade de pessoas trans*.
Muitas pessoas surgiram com leituras equivocadas de sua colocação e ao menos se propuseram a reflexão e diálogo sobre o que estava sendo dito. Tomaram posturas extremamente violentas, expondo nossa companheira a uma série de agressões verbais e simbólicas graves, e dignas de todo nosso repúdio.
Queremos dizer abertamente que nós, da Marcha das Vadias de Salvador, jamais compactuaremos com a transfobia e estaremos sempre prontas para receber nossas companheiras trans*, assim como toda diversidade de mulheres, pois entendemos que apenas trabalhando as interseccionalidades destruiremos os pilares de opressões que sustentam o patriarcado e alcançaremos, de mãos dadas, a real igualdade.

            Exigimos respeito as nossas companheiras trans*!

Transfobia não passará!

            Como reafirmamos a necessidade de dar voz a todas as mulheres para que elas possam falar por si mesmas, segue a carta escrita por nossa companheira viviane v. em relação a sua participação na Marcha das Vadias de Salvador e em resposta aos ataques transfóbicos contra a sua pessoa e, também, a todas nós como irmandade.

Carta aberta de uma transfeminista vadia

Meu nome é viviane v., sou uma mulher transfeminista.

viviane v. O nome em letras minúsculas, por sua ilegalidade, sua deslegitimação cistêmica, por bell hooks e a energia crítica que dela procuro receber com humildade e responsabilidade. Esta responsabilidade: algo que deve incluir uma análise crítica sobre minhas implicações — ancestrais, familiares, contemporâneas, pessoais — na constituição e reprodução do cistema racista, sobre meus privilégios de acessos, sobre as possibilidades e deveres “de inventar a contra-mola que resiste” por todos os meios necessários e em solidariedades.

Mulher. Mulher trans*, “sujeito” de “divergências” nos feminismos. “Divergências” que, por muito tempo, levam a diversos graus de desinteresse e invisibilização, dentre as pautas de feminismos, em se discutirem e enfrentarem os assassinatos de pessoas trans* — em particular, de mulheres trans*, de mulheres trans* prostitutas, de mulheres trans* racializadas — nos quais o Brasil é líder mundial entre as estatísticas disponíveis (ver os relatórios ‘Transrespect versus Transphobia Worldwide’ – “Transrespeito versus transfobia pelo mundo”, em tradução livre), entre tantas outras violências dos cis+sexismos socioculturais.

Assim como meu nome, minha identidade de gênero trans* não tem a mesma importância estatística que as identidades não trans*. As identidades cisgêneras, noutras palavras. “Cisgêneras”?

As aspas têm caráter político: reconhecer criticamente minha ancestralidade (parcialmente) branca é parte da destruição do cistema racista. Dizer-me “branca”, não. Preferir “homens de verdade”, “mulher genética” e quetais ao invés do simples e elegante prefixo oposto a “trans” — cis — significa não somente reificar biologizações não científicas de gêneros atravessados por culturas e sociedades, mas também marginalizar lutas de pessoas trans* por sua dignidade humana.

Transfeminista. As lutas trans* se nutrem (apesar de tantas exclusões) de energias de feminismos, e os vêm trans*formando também. Manter e reificar perspectivas essencializantes e biologizantes de gênero não é somente uma estratégia política a se problematizar (em detrimento, por exemplo, de perspectivas sensíveis às diversidades existenciais, corporais e intersecionais que atravessam corpos auto+identificados como de mulheres), mas também uma posição política potencialmente excludente.

Historicamente excludente, aliás. E a possibilidade de trans*formar tais premissas essencializantes e biologizantes de gênero está entre as potências críticas dos trans*feminismos que vêm se formando mundo afora.

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Fotografias vadias

No período recente, venho participando da construção da Marcha das Vadias de Salvador, compreendendo-a como situada em um contexto político muito importante: durante um evento de futebol violador de direitos humanos e intrinsecamente associado a projetos cissexistas, e em uma cidade negra de desigualdades e injustiças racistas, elitistas, “democratas” de coronelices e marvadezas.

viviane marcha 1

Marcha das Vadias, eventos onde a presença de pessoas trans* tem sido debatida (nem sempre de maneira bacana, diga-se, mas ainda assim debates politicamente significativos), uma certa exceção à regra de invisibilizações e deslegitimações de gêneros trans* que ocorrem em diversos âmbitos no cistema. Em algumas destas Marchas das Vadias, processos importantes no sentido do fortalecimento de feminismos feitos por pessoas trans*, e particularmente por mulheres trans*, têm acontecido: em alianças e afetos com inúmeras pessoas cis, em diálogos e aprendizados intersecionais de todas nós sobre vivências trans* e cis, nas possibilidades (ainda insuficientes, mas crescentes) de solidariedades entre pessoas trans*. Alianças, diálogos e possibilidades que não se restringem aos espaços das Marchas das Vadias, mas que neles têm se viabilizado com alguma força (relativa).

A partir desta análise do contexto local e geral das Marchas das Vadias é que decidi realizar, com uma pessoa fotógrafa muito querida, algumas fotografias para divulgação da Marcha das Vadias de Salvador. Com elas, quis trazer três temas, fundamentalmente: “Vadiagens Trans*”, com a proposta de que a marcha seja um espaço seguro para que resistências trans* anticissexistas (em solidariedades com todas mulheres) possam ter a Marcha das Vadias como um lugar político interessante de contestação aos processos de culpabilização das vítimas — temas fundamentais desde a primeira ‘Slutwalk’; “Abaixo Assimilações GGGG”, por uma reflexão sobre os processos históricos de marginalização e colonização das lutas LBTQI em prol das demandas políticas de homens cis gays (de classe média, brancos, etc etc.); e “Autodefesas Contra Cis+sexismos”, como uma proposta de debate sobre as estratégias possíveis que mulheres podemos utilizar no enfrentamento a instâncias cissexistas, particularmente aquelas que nos ameaçam a integridade física e a vida, perpetradas eminentemente por homens cis.

Esta última fotografia (abaixo) é foco das reflexões centrais deste texto.

marcha vivi 2

Esta fotografia foi publicada no grupo de organização coletiva da Marcha das Vadias de Salvador, na página do evento deste ano, e em meu perfil pessoal de forma pública. Junto à fotografia, acrescentei o texto a seguir:

“Marcha das Vadias em Salvador! 2 de julho, a partir das 8h da manhã!

Art. 25 do Código Penal: “Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem.”

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1980-1988/L7209.htm#art23

Infelizmente, sabemos que o cistema deslegitima, culpabiliza e desampara muitas vítimas de violências de gênero. Precisamos estar todas preparadas, dentro de nossas possibilidades e em solidariedades, para exercer o direito à legítima defesa.

Por todos os meios necessários.”

Os assassinatos apresentados pelo relatório “Transrespeito versus transfobia pelo mundo” são, eminentemente, cometidos contra mulheres trans* e travestis. Estes crimes costumam envolver, com frequência, brutalidade da pessoa assassina e descaso+violências por parte do cistema policial militarizado, racista, elitista. Por sua vez, nas violências perpetradas contra mulheres cis, particularmente nas interseções de raça e classe social, também se repetem processos de brutalidade, descaso e violência institucional.

Estas informações sobre o contexto (de cis+sexismos racistas, cristão-cêntricos, elitistas) em que vivemos é que provocam a proposta fotográfica: se o “cistema deslegitima, culpabiliza e desampara muitas vítimas de violências de gênero” — mulheres cis e trans* e travestis, particularmente –, é importante que reflitamos sobre possibilidades de autodefesa que não sejam tão dependentes do cistema policial ou jurídico, por conta das exclusões e impunidades que institucionalmente promovem.

Cis+sexismos, aliás, talvez seja o conceito-chave para afastar quaisquer dúvidas sobre minhas propostas. Em um artigo acadêmico que escrevi no período recente, “Explorando Momentos de Gêneros Inconformes – Esboços Autoetnográficos“, sobre uma experiência profissional minha analisada autoetnograficamente, faço um esforço para contribuir às reflexões sobre o que poderia ser este conceito (uma busca simples por ‘cissexismo’ também traz, como primeiro resultado, este link que dialoga bastante com minha definição):

O termo ‘cis+sexismo’ é uma tentativa de caracterizar a complexa interseção  entre a normatividade sexista de gênero (produtora cultural das diferenças homem-mulher) e a normatividade cissexista de gênero (produtora cultural das diferenças cis-trans). A cisgeneridade, de forma bastante breve, pode ser caracterizada como as posições normativas/coerentes no segmento ‘sexo-gênero’: são as identidades de gênero binárias, definidas a partir de ilusões pré-discursivas (como a que pressupõe a existência de dois ‘sexos biológicos’ objetivamente identificáveis), e tidas como permanentes. É costume, em nosso contexto histórico, referir-se a pessoas cisgêneras como homens/mulheres ‘biológicxs’, ‘de verdade’, ‘naturais’, ‘cromossômicxs’, etc.

Neste sentido, dada a evidência de que a proposta política de minha fotografia é de que “[p]recisamos estar todas preparadas, dentro de nossas possibilidades e em solidariedades, para exercer o direito à legítima defesa”, e sabendo também que o cistema atua contra nós (ao deslegitimar nossos gêneros trans* ou os corpos negros de mulheres cis, por exemplos) inclusive neste eventual exercício de direito, o centro de minhas preocupações foi (e é) de que dialogássemos sobre que estratégias nos podem ser úteis, enquanto mulheres, para o enfrentamento de todas instâncias cis+sexistas.

As armas brancas com que faço a fotografia demarcam os limites a que esta legítima defesa pode, eventualmente, chegar. Homens cis assassinam covarde e cruelmente mulheres trans* e cis mundo afora, e é por isto que, quando penso em autodefesas, penso em CeCe McDonald, injusta e inadequadamente encarcerada pelo cistema prisional estadunidense ao se defender de violências físicas cis+sexistas e racistas, e em todas as violências de gênero contra mulheres cis que vão sendo silenciadas (às vezes até por conveniências políticas ‘de esquerda’, veja só) por um cispatriarcado normatizante.

As armas servem para nos lembrarmos de que, diante de atentados contra nossas vidas (fundamentalmente perpetrados por homens cis), não devemos excluir a possibilidade de estabelecermos formas de resistência críticas: o corpo que, se necessário/inevitável, reage e se coloca, materialmente, diante da injustiça, em suas possibilidades e limitações. CeCe, mulher trans* negra, é inspiradora neste e em tantos outros sentidos.

Finalmente, gostaria de apresentar dois pontos importantes, reflexões a partir do que venho escutando aqui e ali:

1) Às pessoas trans* que consideram que eu possa ser uma “mulher trans* elitizada”, “diferente de nós”, e que “não nos representa”: primeiramente, quero afirmar meu compromisso de vida em não procurar ‘representar’ ninguém — não no sentido reducionista e colonizatório que busca nos simplificar a todas nós a partir de supostas ‘representantes’ de um ‘grupo social’ com alguma ‘condição’ ‘esquisita/bizarra/diferente/extravagante’. É por isto que meu esforço analítico se propõe intersecional: minhas experiências de vida enquanto mulher trans* de classe média alta, branco-asiática, que teve acesso a recursos financeiros, educacionais e de saúde compõem **uma** experiência trans* entre tantas outras, que não podem ser limitadas a um ‘universo trans’ ou o que seja.

Somos mais que os estereótipos e classificações que nos fazem engolir diariamente. Somos todas diferentes entre nós: não há a travesti, a mulher transexual, a pessoa não binária ‘padrão’. Nossas múltiplas experiências dentro do cistema formam uma diversidade de estratégias de sobrevivência e de luta. Meus privilégios sociais, por sua vez, me colocaram em um cenário específico: um cenário em que, por exemplo, a chave de fenda que carrego em minha bolsa para autodefesa nunca tenha precisado ser utilizada. Para tantas outras mulheres trans* e travestis, suas armas e corpos resistem já desgastados pelas violências cistêmicas. Precisamos de autocríticas e empatias para lutarmos, aprendermos e colaborarmos umas com as outras.

É por estas razões que minha proposta é de que pensemos em solidariedades sobre nossas estratégias de autodefesa: nossa segurança pode se potencializar em coletividade, recusando o paradigma do ‘super-herói invencível’ (uma imagem e epistemologia do cispatriarcado). Quero que meus privilégios sociais sejam mais munição para as lutas contra o cistema, e que as experiências e vozes trans* mais marginalizadas também tenham como encontrar alianças de resistência e expressão: este é um de meus objetivos centrais enquanto acadêmica, e venho tentando seguir neste aprendizado e construção apesar de minhas tantas limitações, apesar das tantas distâncias que colocam entre nós.

Espero, verdadeiramente, que possamos dialogar mais e a partir de perspectivas solidárias e de coletivização dos esforços de resistência. Que façamos mais o exercício crítico de analisar que grupos políticos têm intere$$e em nos dividir e em nos cooptar para ganhar poder e influência política (ventos sopram ‘gggg’), ao mesmo tempo em que nos dão migalhas de cidadania e direitos e exigem louvações de agradecimentos acríticos.

Espero, enfim, que notemos as diversas (infinitas?) formas que o cistema/cispatriarcado nos violenta a cada dia, e vejamos nas outras pessoas trans* uma possibilidade de aliança, não uma competição pelos ‘agradinhos’ do cistema vindos das pessoas cis, brancas e cristãs.

2) Às feministas trans*-excludentes de diversos tons e matizes: espero, sinceramente, ter afastado quaisquer das hipóteses de que eu, uma mulher, estaria ameaçando outras mulheres (cis ou trans*) ao empunhar uma faca de cozinha e uma chave de fenda e ao propor autodefesas contra cis+sexismos.

Espero que tenha ficado mais explícito, por exemplo, que as violências cis+sexistas contra as quais fosse preciso utilizar uma faca de cozinha e uma chave de fenda são fundamentalmente perpetradas por homens cis. Neste sentido, enquanto proposta fotográfica, minha postura como mulher que enfrenta cis+sexismos através de autodefesas é a de refletir sobre casos como o de CeCe McDonald, avaliando criticamente possibilidades e cautelas de considerarmos estas estratégias em nossas vidas.

Finalmente, acredito que seja relevante enfatizar que quando penso que nossas estratégias devem se debruçar sobre “todos os meios necessários”, isso vale tanto para pensar nos nossos ‘limites máximos’ (a resistência armada, talvez), quanto para considerar reações proporcionais e estratégicas às violências cometidas contra nós. Ou seja: contra um cistema brutal, até as resistências armadas devem ser consideradas, mas precisamos também pensar em outras estratégias inteligentes (vídeos, posts em blogs, conversas pessoais) para enfrentar todos os tipos de violência que nos ocorrem.

Os meios necessários à destruição do cistema/cispatriarcado são inúmeros, e talvez nunca os tenhamos suficientemente. Entretanto, para argumentar contra as perspectivas trans*-excludentes de diversas feministas (várias delas autodenominadas “radicais”), bastam-nos honestidade intelectual e visão crítica.

Já estamos vencendo algumas injustiças cistêmicas, com e sem perfil de facebook. E, vencendo ou não, seguiremos resistindo. Se não por nós, pela memória das lutas de tantas de nós, trans* de tantas interseções.

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Tornar-se cisgênero

No ritual de passagem adolescente, alterações corporais irrefreáveis ganham espaço nas vidas de várias pessoas, agregando-se às suas subjetividades. Tornar-se cisgênero acaba sendo, então, um evento inevitável, nem sempre desejável, um modus operandi hormonal inesperado.

A partir daí, nossos corpos são (mais) veementemente simbolizados, nossas sexualidades mais fortemente evidenciadas (e/ou hipersexualizadas), nossos atos cistematicamente indesculpáveis; Não podemos mais, na presumida inocência infantil, perguntar por que não podemos usar/se associar a essa ou aquela coisa, agir dessa ou daquela maneira. Não que a coerção (e a correção) não viesse, de outras formas, enquanto crianças, mas há algo de agenciador no ritual de passagem cisgênero, que marca a nossa (i)responsabilidade em não sermos outra coisa que não cisgêneros. Após o ritual deixamos de ser crianças, e socialmente devemos responder por nossos atos que podem ou não tencionar nossa cisgeneridade.

Nossa memória do futuro é cisgênera, ao passo que o ritual já está prescrito, é um evento pré-determinado do futuro, normalizado, esperado, acatado, e qualquer tentativa de interrupção ou desvio é considerada um ultraje, execração, um atentado contra a ordem natural das coisas, contra o que deus fez, contra a biologia, contra a saúde.

Crianças, acreditamos, não são agentes de si. “É coisa de criança” dizemos, enquanto corremos para levá-las ao/à psicólogx, que nos dará a resposta esperada, o conforto ansiado: “seu/sua filhx é normal” ou “seu/sua filhx é portador/a/x de uma doença, mas que poderá ser curada e elx será normal, viverá uma “vida normal”. A “cura” pode vir na forma de duas coerções: o impedimento cistemático de todos gestos, expressões, gostos pelo “sexo oposto” ou o “processo transexualizador” que irá reorganizar binariamente esses corpos.

Toda vez que um sujeito diz “não desejo passar por isso”, “não me reconheço nesse corpo”, “minha memória não é essa”, “esse não é meu futuro”, um conjunto de discursos é colocado em prática, para defender a criança dos agentes externos que lhe desejam modificar a estrutura, ou para reorganizar esse corpo dentro do cistema, como outro binário. Mas quem defende a criança queer, como pergunta Preciado?

Que diferenças, tão díspares, haveria entre o ritual cisgênero pautado pela injeção interna de hormônios, cujos efeitos serão determinadas modificações corporais, e as injeções externas de hormônios cujos efeitos serão determinadas modificações corporais?

O que o devir cisgênero tem a ensinar sobre autonomia?

Tornar-se transgênero é categoria nosológica, tornar-se cisgênero é natureza.

Tornar-se transgênero é a pedra no caminho, tornar-se cisgênero é o próprio caminho.

Nos compêndios médicos, uma infinidade de técnicas e guias sobre como “tratar” a nosologia trans*, mil e uma explicações que inexplicavelmente reduzem as subjetividades trans* a apenas uma. Um estudo de caso com 14 sujeitos que universalizam a experiência identitária. Dezenas de artigos e discussões sobre “transexualidade na infância”. A patologia amplia seus domínios. Logo estaremos falando no gene da transexualidade, se é já não existe e felizmente me poupei de acessar tais informações.

Vejo muita gente com boa intenção falando em “crianças trans*” ou “transexualidade na infância”. A transexualidade é também um conjunto de crenças médicas materializadas numa nomenclatura/categoria nosológica. Quando corremos para classificar crianças que expressam seu gênero de forma inconforme com o cistema, ou seja, a(s) expressão(sões) de gênero(s) e o(s) corpo(s) designado(s) e cistematizado(s) não são isonômicos, estamos indiretamente patologizando uma expressão e estereotipando comportamentos. Ser trans* é sobretudo uma experiência identitária, e como toda experiência identitária ela é – ou deve ser – autônoma, deve haver agência por parte dxs sujeitxs que a experienciam. Essa também é uma luta do Transfeminismo.

Crianças devem ser livres para expressar seu(s) gênero(s) sem classificações identitárias que não escolheram, caso contrário acabaremos essencializando certas expressões/vivências como sendo trans*, sem ao menos deixarmos que seus agentes decidam por si mesmxs, quando forem capazes de compreender o que tal identidade significa e quais são as implicações existentes.

Nós trans*, nem sempre fomos trans*, mas pode-se dizer que muitxs de nós fomos pessoas cujo gênero era inconforme ao cistema. Fomos não, somos. Muitas de nossas infâncias foram pautadas pela subversão das normas que orientam o gênero. E nós éramos quem sempre fomos: nós mesmxs. Que essa experiência, posteriormente, foi classificada com o termo “transexualidade” de nada sabíamos e não teria feito diferença. Talvez a diferença tivesse sido o conforto que a patologia traz aos pais e mães desesperados com a “pane no cistema”.

Me entendo como trans* porque existe uma categoria identitária que abraço, sobretudo politicamente, para demandar direitos e explicar o que meu corpo e meu gênero significam para um mundo cistemático. Para mim, é uma categoria que inteligibiliza minha existência. Só que ao mesmo tempo, essa categoria permanece como doença mental. Só existe se for através do estigma da doença. E como lembra Missé, só podemos subir à Arca que promete a cura para os corpos errados, que nos levará à Ítaca com a promessa de uma vida melhor, se estamos convencidxs que nossos corpos sempre foram errados, de que necessitamos consertos, e essa memória de nunca termos sido normais é algo que jamais conseguiremos desexperienciar.

Meu corpo não é errado, não necessito de cura, errado é o cistema. Nunca fui uma criança transgênera, eu fui eu.

Prazer, eu sou a Hailey.

 

 

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Sobre ser trans e suicídio

[Aviso de conteúdo: Esse texto fala sobre suicídio e sobre os sentimentos resultantes desses eventos].

Há algum tempo atrás, navegando pelo tumblr, me deparei com esse texto e achei muito necessário – embora pesado – para que possamos entender mais sobre a realidade das pessoas trans* no que diz respeito ao suicídio. Gostaria de passar a mensagem que este blogue está sempre aberto para quaisquer pessoas trans* que desejem desabafar sobre suas vivências.

Sobre ser trans e suicídio 

Tradução: Hailey Kaas

8 de julho de 2012

Eu voltei para casa hoje à noite depois de uma semana fora e vi um monte de amigos postando em seus murais do Facebook acerca do suicídio de um homem trans das redondezas. Eu não o conhecia pessoalmente, mas muitas pessoas que eu conheço, sim. Elas trabalhavam com ele e eram amigas dele. A dor e a devastação emocional dessas pessoas pela perda estão circulando pela cidade nesse momento, e meu coração está apertado por elas e por ele.

No entanto, essa não é uma história minha para ser contada. Eu não perdi um amigo, um colega de trabalho ou um mentor. Ainda assim, isso bate muito fundo: Toda vez que eu fico sabendo sobre mais uma pessoa trans que cometeu suicídio, me sinto sem ar, como se tivesse recebido um soco no estômago. Não importa se eu as conhecia ou se tinha algum contato com suas vidas, ainda me desperta uma profunda, dolorosa empatia, e um entendimento tão trágico que faz eu me sentir mal. Eu imagino ter tal reação instintiva porque, sinceramente, eu pensei várias vezes em acabar com minha vida. Eu tinha talvez oito ou nove anos quando pensei nisso seriamente, e desde então esse sentimento tem estado comigo ao longo de toda minha vida adulta. Eu imagino que a maioria de nós que carrega o peso cultural de “ser trans” pensou nisso em algum momento da vida; Eu imagino que boa parte de nós considerou isso em algum nível detalhado.

É uma trágica camaradagem, esse relacionamento com a destruição de nós mesmxs e de outrxs como nós. Fico triste, e com raiva, e com desprezo por culturas que coagem pessoas lindas ao suicídio. Quero gritar e demandar algo, não sei nem o que, mas tudo parece como dar murros em ponta de faca. Geralmente eu não gosto de grandes expressões sentimentais, no entanto: Pessoas trans, nós precisamos umas das outras. Esse mundo nos esmaga de vez em quando, mas compartilhar essa experiência alivia um pouco da pressão. No mínimo podemos nos permitir fazer isso, uns pelos outros. Pessoas cis, precisamos de você. Somos pequenxs, não temos o número necessário para fazer desse mundo um lugar onde possamos existir, muito menos crescer. Precisamos de vocês para nos ajudar a fazer daqui um mundo melhor para nós, e então talvez não percamos tantxs de nós.

Para aquelxs que eu conheci e se foram, sinto falta de vocês.
Para aquelxs que eu não conheci e se foram, sinto muito que eu nunca vou poder conhecê-lxs.
Para aquelxs de nós que ainda estão aqui, vamos fazer o possível para fazer desse mundo um lugar mais fácil de viver.

Muito amor para vocês, Kyle.

Texto original: http://goo.gl/vLwVR

 

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Disputas acerca do conceito de “privilégio” em discussões sobre privilégio cisgênero

Este texto faz parte da Blogagem Coletiva pelo dia da Visibilidade Trans*, uma colaboração entre os blogues Transfeminismo, Blogueiras FeministasBlogueiras Negras e True Love.

Por Leda Ferreira do Amaral

Pessoas trans* que buscam engajamento e visibilidade em espaços de militância frequentemente precisam apontar o lugar de discurso de seus interlocutores cisgêneros, numa tentativa de demonstrar como os privilégios cisgêneros destes podem estar interferindo em sua capacidade de sentir empatia pelas pessoas trans*. Não raro, situações como essas terminam em disputas sobre o que “privilégio” envolve e se determinado grupo de pessoas cis têm ou não o que se chama de privilégio cisgênero – disputa essa que frequentemente prossegue para a própria negação da existência de privilégio cisgênero ou da cisgenereidade em si. Um dos espaços de militância onde isso ocorre repetidamente é o Feminismo.

Feminismo, para muitas pessoas, é um movimento que luta pela liberação e emancipação de todas as mulheres, e pessoas trans* buscam espaço e visibilidade dentro deste movimento, principalmente as mulheres trans*, que, mesmo se não fossem um grupo extremamente vulnerável socialmente, correndo os riscos mais altos de sofrerem violência física e sexual e exclusão das escolas e dos ambientes de trabalho, deveriam ter suas pautas levadas em conta por este movimento simplesmente pelo fato de serem mulheres.

A mera ideia de que todas as pessoas cisgêneras – incluindo as mulheres – exercem poder e privilégio sobre pessoas trans ainda encontra muita resistência entre muitas feministas. Uma das estratégias usadas é colocar em debate o próprio conceito de privilégio. Segundo esse pensamento, privilégio implica em beneficiar-se de alguma forma da marginalização ou exploração de outra pessoa. Mulheres cisgêneras não exerceriam privilégio cisgênero, portanto, porque elas não se beneficiariam de forma alguma da marginalização e violência que as pessoas trans* sofrem. O próximo degrau deste argumento é negar a própria cisgenereidade em si, potencialmente abrindo caminho para negar também a transgenereidade. É interessante perceber como a negação do privilégio cisgênero é base fundamental para a transfobia.

Para fundamentar tal pensamento, muitas vezes é feita uma analogia com o racismo: é ponto pacífico entre feministas que mulheres brancas exercem poder e privilégio sobre mulheres negras, devido ao racismo estrutural da sociedade, do qual mulheres brancas se beneficiam, por terem muito mais chances do que as mulheres negras de terem participação no patrimônio econômico que durante séculos foi gerado pelas próprias pessoas negras, sob condições de trabalho escravo desumanas, e por não enfrentarem o preconceito social resultante de séculos de estigmatização das pessoas negras. Porém, tal privilégio não existiria quando falamos das relações sociais com pessoas transgêneras. Por exemplo, o fato de as pessoas trans* encontrarem barreiras estruturais e sistêmicas para alterarem seus documentos e poderem ter direito ao seu nome e ao seu gênero e, por causa disso, serem excluídas do mercado de trabalho não implicaria em privilégio para as mulheres cisgêneras, que não enfrentam os mesmos problemas, pois elas não se “beneficiariam” do fato de as pessoas trans* passarem por essas dificuldades.

Comparando esse exemplo ao do racismo, e analisando o argumento, parece que quem defende isso entende privilégio exclusivamente como exercício de poder econômico, em que se possui alguma vantagem financeira sobre alguém. Naturalmente, classes privilegiadas reservam para si o direito de determinar o que é ou não privilégio. A manutenção do significado de privilégio permite às classes privilegiadas impedirem que se questione o próprio sistema que lhes dá poder, em primeiro lugar.

Questionar o poder de classes privilegiadas – incluindo, aí, pessoas cisgêneras – de decidirem acerca do significado de privilégio é vital. Mas hoje não faremos isso. Ao invés disso, aceitaremos, para os propósitos dessa discussão, a definição de privilégio que feministas cisgêneras escolheram como oficial, para demonstrar que, mesmo sob essa definição, ainda encontramos exemplos de privilégio cisgênero.

A marginalização das pessoas trans* diminui o acesso dessas pessoas às escolas, faculdades e universidades e ao mercado de trabalho – e consequentemente diminui a concorrência que as pessoas cisgêneras enfrentam. Isso é uma vantagem econômica – um privilégio, que mulheres cis também exercem. Cabe ressaltar que não se deseja, com essa constatação, culpabilizar as mulheres cisgêneras pela marginalização das pessoas trans*. Os meios de produção são, em sua maioria, controlados por homens cisgêneros, que decidem quem contratam ou não, e que certamente são responsáveis pela exclusão de pessoas trans*. Porém, mesmo não sendo responsáveis por isso, mulheres cisgêneras ainda assim se beneficiam disso.

O mesmo vale para abrigos para mulheres vítimas de violência e estupro. Mulheres trans* são desproporcionalmente mais afetadas por esse tipo de violência, e teoricamente haveria uma ocupação grande desses espaços por elas, diminuindo as chances de mulheres cisgêneras que sofressem a mesma violência de encontrarem lugar nestes espaços. A atitude de banir mulheres trans* desses espaços sem levar em conta os riscos sofridos por elas – atitude essa apoiada por muitas feministas – resulta em maior chance de mulheres cisgêneras encontrarem lugar nesses espaços se precisarem.

Quanto ao próprio Feminismo em si, impedir o acesso de mulheres trans* aos espaços feministas resulta em mais tempo, energia, dinheiro, esforço e atenção dedicados às pautas específicas das mulheres cisgêneras. Aceitar mulheres trans* nestes espaços significa, para muitas feministas, ver todos esses recursos sendo dedicados em menor quantidade às pautas delas, para serem dedicados às pautas específicas de toda uma classe de mulheres. Isso também pode ser entendido como vantagem competitiva e privilégio.

Questionar a existência de privilégio cisgênero é silenciar as denúncias de opressões vividas por pessoas trans* e se isentar de responsabilidade. É impedir que o lugar de discurso das pessoas cisgêneras seja apontado. É negar que a sociedade e a cultura são cis-supremacistas. É desqualificar a existência de cissexismo. Cissexismo é o fundamento teórico para a transfobia. Não reconhecer a existência de privilégio cisgênero está na base da transfobia.

Que nesta Semana da Visibilidade Trans*, e em todas as demais semanas do ano, se reconheça a existência da transfobia, e que privilégio cisgênero está na base dela. Que lutemos contra a transfobia com coragem.

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Que visibilidade queremos? Qual a visibilidade dos homens trans (e outras pessoas dentro da trans masculinidade)?

Este texto faz parte da Blogagem Coletiva pelo dia da Visibilidade Trans*, uma colaboração entre os blogues Transfeminismo, Blogueiras Feministas, Blogueiras Negras e True Love.

Hoje, Jamal conta sua experiência enquanto pessoa trans* em um breve relato.

Por Jamal Panda 

De alguma forma eu consegui registrar alguns passos importantes da minha transição que se deu no meu ano de 2013, ano que de certa forma eu resignifiquei muitas questões da minha vida e organizei de uma forma diferente a percepção do que eu sou, como as pessoas me vem e na minha busca por ter a vida mais significativa pra mim mesmo. Me disse que era queer, multigênero, e mais um monte de coisa. 

Eu não paro de fluir, entre sensações de gênero, me sentir de uma forma ou de outra, de sentir afinidade com questões femininas (ou ditas femininas). Acho que as coisas dentro de mim nunca vai parar de se mexer e dançar.
Mas estão organizadas de uma forma diferente, eu sou homem trans. Todas minhas inconstâncias, sentimentos diversos estão dentro desde fato. Sou homem trans.

A visibilidade que eu quero é além das pessoas saberem que transexualidade existe, que homens trans existem e que sexualidade é diferente de gênero. A visibilidade que eu quero e preciso é pela despatologização das identidades trans, que as pessoas possam ter acesso a saúde sem constrangimentos, que tenham direito ao seu nome.

O acesso a saúde é muito reduzido, eu e a maioria das pessoas trans se hormonizam por conta. Sabem que vão encontrar mais transfobia no atendimento, vão reconhecer a transexualidade a pessoa se ela se enquadrar ou fingir se enquadrar perfeitamente num discurso patologizante.

Por exemplo, se a transexualidade é vista como doença então não se pode ter outra doença. Ou então te acusarem de não ~~sofrer o suficiente~~ com um desconforto presente com relação ao próprio corpo. Ser vistos o tempo todo como serem que merecem pena, que estão doentes, que nunca serão de verdade. Isso pra me parece muito estranho, já que minha busca sempre foi de ter a vida que fosse mais significativa pra mim e depois ter minha existência invalidada constantemente.

O CIStema produz diversos mecanismos que deixam nossas vidas invivivéis.

E todo dia a gente vai lutando, pelo direito de ser quem se é, pela responsabilidade de tornar a própria vida mais confortável e seguir lutando com outras pessoas pra que pelo menos entre a gente e nos espaços próximos a gente consiga se sentir bem, acolhido e respeitado.

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Arquivado em Feminismos & Transfeminismos